Escola Castelo Branco - 2016
Sugestão de LEITURA
Gustave Flaubert – Madame Bovary
Muitas vezes, dum belo dia o calor
Faz que as moças sonhem com o amor.
Por Paula Perin dos Santos
Madame Bovary (1857), romance de Gustave Flaubert, constitui uma das
maiores obras da estética realista da Literatura Francesa. O segredo
desse sucesso está no estilo, que consiste na “perfeição da prosa e na
maestria mais absoluta da arte de narrar”.
Esta obra ocupa uma
posição central no gênero romance por vários motivos. Um deles é o fato
de ter sido considerado uma leitura “indecente e corruptora” das
mocinhas de família; outro motivo deve-se ao fato de o escritor ter sido
processado pela Sexta Corte Correcional do Tribunal de Sena por tratar
de um tema tão pecaminoso como o “adultério”. Fora absolvido pelos
juízes, mas não pelos críticos puritanos.
O enredo de Madame Bovary
impressiona pela simplicidade, e por tratar com bastante precisão a
estupidez humana. A história começa descrevendo Charles Bovary quando
entrou na escola e a algazarra que provocou nos alunos por possuir um
chapéu ridículo, ser tímido, incompetente e insensível de grande
inabilidade. Muitos críticos consideraram esta descrição inútil,
enfadonha. Pode até ser cansativa, mas inútil não é: o ridículo do
chapéu é o símbolo da estupidez de quem o usa. Assim, durante a
narrativa aparecerá muitos outros chapéus ridículos, como o “boné grego”
do farmacêutico Homais, o chapéu de castor do padre Bournisien e o
chapéu elegante, mas já fora de moda de Rodolphe.
Emma, por sua vez,
é a mocinha sonhadora, romântica, acreditando que suas leituras
medíocres lhe contam sobre a felicidade proporcionada pelo amor. Esse
mundo todo colorido de ilusões se desfaz tão logo se casa, para fugir da
estreiteza da casa paterna, com o já então médico Charles Bovary. Um
dia, num bailei no castelo do vizinho aristocrático Emma Bovary reaviva
seus sonhos românticos, a que tão pouco responde o marido.
Depois
disto, Emma cai na aventura com vários amantes. Primeiro, com Rodolphe,
um tipo de Don Juan do campo, que logo a abandona. Depois com Léon, o
jovem empregado de um advogado. Por esse ela perde o equilíbrio: contrai
dívidas através de empréstimos que nunca poderá pagar. Desesperada e,
acuada pela ganância dos credores, suicida-se.
Só depois de sua
morte Charles Bovary descobre a verdade. Fica perturbado sem saber o que
pensar. Não se vinga dos amantes, não toma nenhuma atitude. Perde tudo o
que tem para saldar as dívidas. Depois morre, amargurado, deixando uma
filha pequena que vai morar com a avó, que também morre. Para
sobreviver, a tia manda-a trabalhar numa fábrica de tecidos. Uma
história triste e, em parte, sórdida.
O romance se chama “Madame
Bovary”. Se levarmos em conta o título, Emma Bovary seria sua “heroína”.
No entanto, a narração começa e termina com o estúpido Charles Bovary; e
nela desempenham um papel importante na trama o estúpido Don-juanismo
de Rodolphe, a estúpida paixão de Léon, a estupidez do padre farisaico
Bournisien e todo esse pequeno ambiente de província, que não deixa uma
saída para Emma nem para ninguém. É por isso que Otto Maria, em seu
ensaio sobre a obra, comenta com grande ênfase: “o verdadeiro personagem
desse romance é a Estupidez humana”.